segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Ignorar as minhas sombras...


Ignorar as minhas sombras não as tornava inexistentes. Tentei rejeitá-las e elas tingiram de preto as minhas cores. Foi quando decidi reconciliar os meus opostos e me tornar inteira. Acolher as minhas sombras e escutar os seus conselhos. Aquelas tantas partes de mim que eu não mostrava a ninguém, mas que sussurravam aos meus ouvidos em todo anoitecer. Se a noite cai na Natureza, aqui dentro também escurece. Quando as luzes se apagam, revelam-se os meus mistérios. A face oculta da Lua me põe nua de segredos. Aceito cada pedaço de mim e, só então, me enxergo um pouco mais plena.

Luz e sombra são eternas companheiras. É a sombra, incansável, que segue meus passos nos dias ensolarados e desenha meu caminho para a aguardada plenitude. Nas alturas que busco, Luz e sombra se amam, e eu decido amá-las desde já. "Prefiro ser completo a ser bom", li certa vez à meia-luz. Por que expulsar os meus demônios se isso vai levar meus anjos com eles? A completude alimenta a alma. Somente ao pular no abismo profundo do eu e resgatar minha sombra abandonada, posso vislumbrar a Luz que tanto buscava. As noites escuras cultivam a semente da redenção.

Há sempre a Luz na escuridão. Da imperfeição sinceramente contemplada, ergue-se o Perfeito. Na compreensão do falso e do transitório, emerge a Verdade eterna. Como alcançar a divindade sem integrar minha humanidade? As sombras me ensinam. Na beleza da minha inteireza, enxergo além das superfícies. Mergulho, e o fundo do mar me leva ao ápice do Céu. Transcendo meus medos, dores e desejos ocultos após conhecê-los em intimidade. Se as pedras brutas vieram comigo, o Fogo do espírito há de convertê-las em ouro.

Renunciei à separação da dualidade e resgatei o matrimônio dos meus opostos. Luz e sombra, bem e mal, vida e morte. Novamente entrelaçados na suprema Unidade em que os conflitos desaparecem. A sombra é a face precisada da Luz que ainda rejeitamos. Persiste, ansiosa, até ser integrada em nossa consciência e nos conduzir aos portões do Absoluto. Olho para ela, e ela me olha de volta. Atendo os seus convites para me libertar e descobrir o que realmente Sou: múltipla de dores, múltipla de cores. Despida, desperta. Inteira, enfim.

Imagem e texto via Xamanismo Sete Raios

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